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A vida depois da Covid-19: pessoas internadas em Pelotas contam como foi superar o vírus

Três mulheres relatam os primeiros sintomas, o período da internação hospitalar e o retorno à rotina, depois de venceram a contaminação pelo novo coronavírus

Por Alessandra Senna 05-05-2020 | 11:08:54

Há pouco mais de dois meses, o Brasil passou a conviver com uma ameaça invisível que, no fim de 2019, já havia devastado milhares de vidas em outros países: o Sars-CoV-2, causador da Covid-19. De lá pra cá, poucos ainda não se perguntaram se podem ter sido ou não contaminados pelo vírus oportunista, ainda em estudo e acompanhamento pela ciência. Os sintomas não seguem um padrão, e são tão diferentes quanto suas vítimas.

No país, já são mais de 100 mil infectados e a contagem de mortes superou a casa das sete mil, diz o Ministério da Saúde. No Rio Grande do Sul, os dados oficiais apontam mais 1.600 gaúchos contaminados, e mais de 76 pessoas já perderam a batalha. Da estatística para a vida, depois da Covid, os recuperados trazem histórias de superação e de mudança de comportamento. 

Em Pelotas, três mulheres viveram dias de incerteza, angústia e desejo de muita saúde. Casos próximos, capazes de comprovar que o vírus não escolhe lugar, idade, sexo, profissão, não são notícia falsa, nem tão simples de tratar. Hoje, elas fazem parte de duas estatísticas: os casos confirmados no Estado, e os que ajudam a elevar o número de "curados" ou recuperados, com têm preferido classificar os cientistas. 

Para chegar a esse status (curado), tão almejado nos dias atuais, as mulheres estiveram internadas em hospital e contaram com o trabalho daqueles que se tornaram essenciais desde o início da pandemia: os profissionais da saúde. O relato das pacientes recuperadas, que preferem o anonimato, e do médico que as acompanhou em Pelotas são a certeza de que o novo coronavírus ainda é um desafio a ser superado tanto pelos doentes quanto por quem se alistou na "linha de frente" de uma das maiores batalhas vividas pela saúde pública mundial.

Relatos

Ana, 21 anos, universitária, moradora de Pelotas, caso número 3 confirmado pela Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde (nome fictício, a pedido da entrevistada)

A quarta-feira, 25 de março, vai ficar gravada na memória da estudante. A dor intensa no estômago fez com que passasse a noite no quarto dos pais, junto à mãe. "Estava com enjoo, vômito, além da dor. No outro dia, foi a mesma coisa, e a febre veio na sexta-feira. No fim do dia, pedi para minha mãe me acompanhar na emergência do plano de saúde. Passei por uma barraca, uma espécie de triagem, e fui encaminhada para um clínico geral. Ele receitou medicação para problemas estomacais, para enjoo. Voltei para casa".  

Os medicamentos não fizeram efeito, mas no domingo, quatro dias após sentir os primeiros sintomas, resolveu voltar, acompanhada pelo pai - a mãe também estava doente -, à unidade de saúde. Na tomografia, a constatação: um dos pulmões apresentava o início de sinais de uma possível pneumonia. A equipe de profissionais de saúde "acendeu a luz amarela", a jovem foi isolada em um quarto da emergência. "Não podia falar com meu pai, mas logo minha mãe chegou. Como ela estava doente, acabou sendo atendida e mantida junto comigo. Ficamos na emergência até a segunda-feira, quando fomos transferidas para um hospital de Pelotas. Cheguei fraca, com os mesmos sintomas do início da doença". 

A jovem dividiu o quarto com a mãe por 8 dias. A recordação é de ir melhorando aos poucos, sem nunca ter um sintoma de virose gripal a saída - nada de tosse, dor de garganta, congestionamento nasal. 

" O pior foi ver as pessoas com medo da gente, de chegar perto, de se contaminar. Todos queriam ajudar, mas sem saber bem como fazer. Isso é angustiante e eu nunca vou esquecer", disse Ana, com a voz emocionada. 

A alta trouxe a sensação de alívio e também o resultado positivo do exame para contaminação por Sars-CoV-2. Ela e a mãe ficaram 14 dias isoladas em casa, após a saída do hospital. "Viajamos no começo de março. A família toda foi ao Rio de Janeiro. Meu pai não ficou doente, nem meu irmão. Como minha mãe trabalha em um hospital aqui da cidade, não temos certeza onde ocorreu a contaminação. O certo é que estamos recuperadas, com saúde, e isso é o que importa". Ana, agora, faz planos para voltar à faculdade, assim que a pandemia deixar.

Mãe e filha, já recuperadas, enfrentaram oito dias de internação por causa da Covid-19 – Foto: Divulgação

Maria, 51 anos, administradora, profissional da área da saúde, moradora em Pelotas, caso número 4 confirmado pela Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde (nome fictício, a pedido da entrevistada)

A tosse foi o primeiro sintoma de Maria, mãe de Ana. Enquanto a filha sentia dores estomacais, ela controlava a própria temperatura. Perdeu o olfato e o paladar no dia seguinte, e a febre surgiu em seguida. "Mas, foi só no domingo, quando também fui à emergência, onde a Ana estava, que percebi que nós duas poderíamos ter sido infectadas pelo coronavírus". Maria admite ter ficado apreensiva até a confirmação do diagnóstico. “Foi um período de muitas dúvidas. Quando o médico disse que, pelas tomografias, era clara a possibilidade de ser a Covid, devido às lesões nos pulmões, decidiram fazer os testes e fomos internadas", relata. 

A partir daí, exercitou a calma e confiou na recuperação. "Sempre tive muita fé, mas foram dias em que pedi muito por mim e pela minha filha", confidenciou. A administradora nunca teve falta de ar. Mesmo assim, precisou de oxigênio para respirar melhor. No hospital, teve dias complicados, mas como toda a mãe, a preocupação era maior com a filha. 

" Eu sabia que poderia ter sido a transmissora, que levei o vírus para dentro da minha casa por trabalhar em um hospital. A sensação é muito ruim. Mas também tinha o lado de eu estar junto com ela, principalmente no período do isolamento, em casa, e isso me confortou". 

Depois da alta, mãe e filha enfrentaram o isolamento domiciliar. Teve dias em que Maria precisou da ajuda de Ana. A mãe estava mais debilitada pela doença, e a tosse demorou a passar. "Sempre fomos próximas, mas o coronavírus fez com que uma cuidasse da outra. Na verdade, ela cuidou mais de mim... Foi quase um presente de Dia das Mães, ter vivido isso junto com ela - tivemos esse privilégio", diz Maria, ao suspirar. Ela encerra a conversa com um apelo - a testagem de todos os profissionais que trabalham na área da saúde. "Só sei que fui contaminada porque adoeci. Podemos estar colocando em risco a vida de nossas famílias".

Vera, 61 anos, eletricitária, moradora em outra cidade gaúcha (nome fictício, a pedido da entrevistada)

Vera nunca imaginou que a viagem de férias, com o filho de 23 anos, começaria no Nordeste e terminaria em um hospital de Pelotas, com teste positivo para o novo coronavírus. Ao retornar do passeio, a dupla precisou fazer uma conexão em São Paulo, onde já existiam casos confirmados para a doença. Seguir os protocolos de higiene, usar máscara, não foram suficientes para evitar a infecção. "Ao sentir os primeiros sintomas, como muita dor de cabeça, perda de olfato e paladar, pedi dispensa do trabalho para ficar 15 dias em casa, como estava sendo recomendado para quem havia voltado de viagem", lembra a eletricitária. Mas, os sintomas só se intensificaram e ela resolveu procurar a emergência do plano de saúde em Pelotas, onde costuma fazer tratamentos médicos e tem parentes. 

"Sou uma mulher saudável, pratico esportes, fiquei preocupada quando os exames apontaram pneumonia e fui encaminhada para o hospital". No caso de Vera, o vírus mostrou parte de seu potencial e ela precisou de oxigênio durante dois dias. Depois de 13 dias de internação, teve alta. Nesse tempo, o filho cumpriu o isolamento social, manteve-se assintomático, mas positivou para o vírus. Ao falar da volta à rotina, Vera, não esconde a preocupação com a falta de crença das pessoas. 

"Tem gente que ainda acha que não existe, que não vai pegar. É invisível, está ao nosso lado. Tem que usar máscara, lavar as mãos, manter o isolamento social, e preocupar-se com o outro", diz a mulher, que ficou com sequelas nos dois pulmões.

Rafael Calderipe Costa, médico clínico geral e nefrologista, responsável pelo tratamento das três mulheres internadas em Pelotas com Covid-19

O quadro clínico das duas primeiras pacientes, informado pela equipe de plantão do plano de saúde, fez o médico Rafael ficar mais atento, quando mãe e filha chegaram no hospital em que trabalha. "Poderia ser uma pneumonia viral, mas por tudo que estávamos acompanhando sobre a Covid-19, apesar de não terem um quadro mais grave, achei que a possibilidade de estarem infectadas pelo vírus era grande".

O clínico geral e infectologista estava certo, mas o desafio de tratar as pacientes foi grande e fez com que o profissional intensificasse a busca por informações na área científica. ”Desde o surgimento da doença, estou me atualizando, acompanhando o que é feito e que serve como referência, como agir e até que tipo de medicamento utilizar." Três diferentes aprendizados para os 16 anos de Medicina do médico Rafael. 

"Vivemos um misto de apreensão e tomada de decisões. Estamos lidando com algo novo. A Medicina mundial ainda não tem todas as respostas", reflete o médico, que não esconde uma certeza de hoje estar, mais do que nunca, salvando vidas.

Não caia em fake news.

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saúde, coronavírus, internações, recuperados, Covid-19, paciente, respirador

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