Arte urbana intervencionista na Praça Coronel Pedro Osório

Por Divulgação 20-10-2006 | 00:00:00
Tags:

O projeto Interações Urbanas – Intervenções artísticas no entorno da Praça Coronel Pedro Osório -inicia na quarta-feira (25). No centro de Pelotas, a Praça Coronel Pedro Osório e seu entorno prestam-se, de maneira exemplar, como suporte para uma exposição de arte urbana com caráter intervencionista, tal como Interações Urbanas É onde se encontra expressivo número de exemplares arquitetônicos, datados da fase áurea do ciclo do charque, em que se pode apreender as transformações ocorridas, revelar modelos de ascensão e declínio nos sistemas e forças de crescimento e mudança.

Considerando que nossos valores são relativistas, nossa cultura pluralística, e que os processos de interação entre os seres humanos são os que verdadeiramente criam sentido, o objetivo de Interações Urbanas é conceber uma experiência enriquecedora, capaz de despertar reflexões sobre o que foi, o que deveria ser, e o que é, hoje, a cidade de Pelotas, dizem os organizadores.

Daniel Acosta, Elaine Tedesco, Grupo BijaRi, Laura Vinci e Renata Padovan são os artistas convidados. Dois do Rio Grande do Sul e três de São Paulo. Todos eles, reconhecidos nacional e internacionalmente. Seus trabalhos, aqui apresentados, foram produzidos especialmente para a Mostra, tendo-se em vista possibilitar o comprometimento dos artistas com Pelotas, tanto em seu aspecto físico como humano. Obras com capacidade de manter diálogo entre as três vertentes que norteiam este evento: a cidade e sua população, a arte contemporânea e o patrimônio histórico arquitetônico.

O intuito não é expor obras com valores exclusivamente estéticos, mas, sim, aquelas com capacidade de interferir no cotidiano das pessoas e que possibilitem à comunidade, reavaliações e reinterpretações das relações existentes entre os elementos que orientam o evento.

O caráter temporário da exposição atende aos propósitos do projeto Interações Urbanas, pois a permanência das obras no espaço urbano implicaria em sua absorção na paisagem e, por conseguinte, perderia seu caráter corrosivo.

Satolep Cosmocave é o título da obra que Daniel Acosta, artista gaúcho de Rio Grande, elaborou para Interações Urbanas. Instalado no largo Edmar Fetter, em frente ao Mercado Público, Daniel utiliza como fonte de inspiração, de um lado, as arquiteturas portáteis dos quiosques, cabines de telefone, guaritas e caixas eletrônicas; de outro, o projeto original do mercado, que sofreu, entre 1911 e 1914, grandes transformações em sua fachada e, também, na sua planta. Os ornamentos e a circulação daqueles que ali passavam – prevendo uma maior interação com a população - são resgatados nesta obra, que redesenha a paisagem urbana num espaço pleno de significações, põe em xeque este espaço e os hábitos que aí se enraizaram, garantindo diferentes instâncias ao olhar e convocando o transeunte à contemplação e ao convívio social.

BijaRi é um grupo formado por dez jovens, com maioria egressa da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), que já correu mundo afora para mostrar seu trabalho. Havana, Berlim, Moscou, dentre outras cidades, foram palco de suas atuações transgressoras. No entanto, é na cidade de São Paulo que seus integrantes trabalham com mais veemência, aderindo às causas dos sem-tetos e dos camelôs, excluídos de áreas que sofrem reformas urbanas ou, ainda, questionando a vigilância panóptica, tão corrente no maior conglomerado urbano brasileiro. Em suas ações, o grupo emprega música, performance, vídeo-instalação e outros meios para executar releituras críticas, que têm como ponto de partida o cotidiano da cidade, possibilitando à população uma fácil e imediata identificação com a proposta. Segundo Rodrigo Araújo, um dos componentes do grupo, os objetos criados têm como objetivo “desmascarar as aparências, apropriando-se dessas aparências de forma crítica e analista”.

Em Parasitas, título da intervenção pensada para Pelotas, o Grupo pretende fazer uso de “giroflex”, aparelho com luzes normalmente usado em serviços de segurança. Na Praça Coronel Pedro Osório encontra-se uma cadeira com sensor de presença, evocando uma sentinela em seu posto. Ao passar pela cadeira, o transeunte acionará todas as luzes dos dispositivos alojados em local a ser selecionado, ativando seu sentido de estar sendo vigiado.

O que caracteriza a obra de Elaine Tedesco são os desdobramentos, que a artista executa de um trabalho efetuado para a criação de um novo trabalho. Uma produção realizada é ponto de partida para uma outra original. Para Interações Urbanas, a artista gaúcha, de Porto Alegre, põe em contato dois dispositivos recorrentes em seu percurso artístico, que, até então, funcionavam separadamente: as sobreposições sobre a paisagem urbana e as guaritas.

Desde algum tempo, Elaine vem desenvolvendo, silenciosamente, trabalhos com sobreposições de imagens, em cidades do interior do Rio Grande do Sul. Em Pelotas, ela utiliza-se de imóveis que revelam estado de abandono, como suporte para projeções de outras imagens, manifestando o mesmo teor. A guarita – signo de preocupação com a segurança e, ao mesmo tempo, abrigo para seguranças e sentinelas – é instalada em frente ao imóvel escolhido e dentro dela, no nível dos transeuntes, é colocado um projetor de slides. O passante, ao atravessar o facho de luz emitido pelo projetor, terá essas imagens estampadas em seu corpo e sua sombra será lançada sobre o imóvel. As edificações selecionadas por Elaine Tedesco foram: o casarão 6, a Casa da Banha e uma casinhola, localizada no centro da Praça Coronel Pedro Osório.

O fazer poético desenvolvido por Laura Vinci tem uma estreita interação com os espaços a serem elaborados. Conceitos como tempo, desenvolvido em "Ampulheta" para o Arte Cidade 3; transformação, como as esculturas executadas com mármore e pó de mármore, e mudanças de estado, como os desenvolvidos com água/gelo, ou o elaborado para a XXVI Bienal de São Paulo com água/vapor, são alguns preceitos que norteiam o trabalho desta artista paulista. Em Pelotas, Laura intervém em três prédios emblemáticos da cidade: o Theatro Sete de Abril, a Biblioteca Pública e o Grande Hotel. Empregando lâmpadas, fios, placas polidas de alumínio, materiais simples encontrados em qualquer loja de ferragens, Laura desenvolve esculturas orgânicas, com luzes e reflexos. As esculturas apresentam-se corporificadas pelos bulbos de lâmpadas cristal (de 150 watts), por fios dispostos nas fachadas dos edifícios e nos salões internos, ao chão e sobre as placas de alumínio. Da praça o transeunte pode entrever formas etéreas nas janelas de vidro, produzidas pelo reflexo das lâmpadas dispostas sobre as placas de alumínio.

Renata Padovan faz uso de dois elementos presentes no dia-a-dia dos pelotenses e que chamam a atenção dos visitantes: os carrinhos de churros, que se espalham pela cidade, e a Fonte das Nereidas. No calçadão da rua XV de Novembro, Padovan instala um desses carrinhos. Dentro do carrinho, em vez de máquinas para fazer churros, há dois monitores de TV e, em vez de churros, oferece aos transeuntes imagens de diferentes ângulos da Fonte das Nereidas.

Vera Pallamin, Virgínia Gil, Sylvio Jantzen, Franscisca Michelon e os artistas convidados, participam de um ciclo de palestras de dois dias, tendo como propósito estabelecer diálogos com a população, sobre as relações que orientam Interações Urbanas. Foram convidados representantes da comunidade local, como intelectuais das universidades, dirigentes de museus, grupos de teatro, de música, artesãos e produtores, que atuam no cenário artístico de Pelotas, para participar deste ciclo de maneira diferenciada: na platéia, como “interlocutores”, cujo papel é o de provocar o diálogo, formulando questões levantadas nas palestras e, assim, assegurar a interação entre artistas, palestrantes e o público presente.

O Centro de Integração do Mercosul é o palco da mostra documental que ilustra a trajetória dos artistas, exibindo um vídeo confeccionado especialmente para o evento. Deste vídeo constam imagens de obras, pequenas biografias e trechos críticos.

Lauer Alves Nunes dos Santos, que ao lado de Luciana Dias da Costa Vianna coordena este evento, idealizou o Programa de Formação para Monitores, ministrado por professores de várias áreas da Universidade Federal de Pelotas. Lauer conseguiu reunir mais de 40 voluntários, entre alunos do Instituto de Artes e Design e interessados, para integrar os diversos segmentos que compõem a mostra: divulgação, mediação com os artistas, produção, confecção de CD e vídeo, além das visitas guiadas. Foram esses jovens que construíram a exposição, com alegria, disposição e senso de responsabilidade. Cartazes colocados em ônibus e em locais freqüentados pela população, bem como “outdoors” espalhados por pontos estratégicos da cidade (dispositivos tão usados pela publicidade em espaços públicos), foram formas encontradas para convidar toda a população pelotense a se fazer presente e, sobretudo, participar do evento.

O evento é uma realização da FAU (Fundação de Apoio Universitário) com patrocínio do Programa Monumenta e em parceria com a Universidade Federal de Pelotas e Prefeitura Municipal de Pelotas, sob curadoria de Solange Lisboa e coordenação de Lauer Alves Nunes dos Santos e Luciana Dias da Costa Vianna. O projeto Interações Urbanas se estende até o dia 25 de novembro.

Alt+1 (conteúdo) • Alt+2 (menu)
Alt+3 (busca) • Alt+4 (rodapé)