A história negra no Sul do Brasil vindo à tona
Acervo da Coleção Batuque estimula o debate sobre a influência africana e a repatriação de objetos afrorreligiosos
A discussão sobre a repatriação de um conjunto de 67 objetos afrorreligiosos levados do Rio Grande do Sul para a Europa na penúltima década do século XIX foi um dos principais temas discutidos durante a roda de conversa sobre a “Coleção Batuque: objetos sagrados aprisionados na Alemanha”.
Evento teve a parceria da Secretaria Municipal de Igualdade Racial e do Conselho Municipal do Povo de Terreiro. Fotos: Daniel Silveira/Smir
O evento, que teve a parceria da Secretaria Municipal de Igualdade Racial (Smir) e do Conselho Municipal do Povo de Terreiro, ocorreu na noite de quinta-feira (22), na Comunidade Beneficente Tradicional de Terreiro Caboclo Rompe Mato Ilê Axé Xangô e Oxalá (CBTT), e serviu também para marcar o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado na véspera.
Conforme um dos palestrantes, o pesquisador e arqueólogo Lúcio Menezes Ferreira, o projeto Coleção Batuque resulta da experiência dos integrantes da equipe de trabalho no estudo da temática da diáspora africana no Rio Grande do Sul, no Brasil em geral e nas Américas. “O projeto procura ressaltar a importância desse deslocamento e suas articulações com os outros territórios negros do Brasil e com o mundo atlântico”, explica.
A Coleção Batuque (@colecaobatuquers) registra a existência do acervo, cujas peças foram apreendidas pela polícia no ano de 1880, após a invasão de autoridades policiais a um ritual de culto aos orixás no Rio Grande do Sul. Todo esse material se encontra inventariado e armazenado na reserva técnica do Museu Etnológico de Berlim. Os itens chegaram até a Alemanha doados à instituição pelo comerciante alemão Wilhelm Pietzcker.
A partir deste trabalho, o grupo de pesquisadores pretende se articular com movimentos sociais, povos de terreiro e a sociedade para promover a repatriação definitiva das peças. “Esse é um movimento que já está na rua, é a restituição simbólica desses artefatos. A exibição pública, ainda que por meio de imagens fotográficas, com as rodas de conversa, são a ocasião de discutir as linhas gerais do nosso projeto e seus resultados”, declarou.
Para Ferreira, o trabalho permite conhecer a perícia técnica e artística de povos de origem africana que viveram no Brasil, além das relações entre os objetos e noções cosmológicas de origem africana, principalmente as de matriz iorubá, como as nações nagô e jeje, que tiveram protagonismo na região meridional do Rio Grande do Sul e em Porto Alegre também. Além disso, ele vê na proposta uma ferramenta para a promoção de políticas públicas antirracistas, conscientizando sobre o racismo estruturante na sociedade brasileira.
O estudo desenvolvido pelos pesquisadores indica que as peças tenham sido apreendidas entre as cidades de Pelotas, Rio Grande ou Porto Alegre. O trabalho também tem revelado que os africanos e seus descendentes que vieram para o Rio Grande do Sul mantinham redes de articulação com outros territórios negros, como as cidade de Salvador, Rio de Janeiro e até mesmo Recife, incluindo sua circulação no mundo Atlântico, com indivíduos e grupos familiares que acabaram retornando ao continente africano, principalmente à cidade de Lagos, atualmente no território da Nigéria. “Essa comunidade estabeleceu fortes vínculos por meio de redes comerciais, espirituais e políticas.” Através dessas conexões, chegavam insumos, como os búzios, por exemplo, que permitiram a confecção dos artefatos retratados.
Esse entendimento é compartilhado pelo historiador Vinicius Pereira de Oliveira, também membro do grupo de pesquisa e curadoria do projeto. “A população negra do Estado não estava isolada, como muitas vezes foi postulado por interpretações de etnógrafos das religiões africanas no Brasil. Nossas pesquisas têm percebido que o Rio Grande do Sul e os africanos estavam imensamente inseridos nessas rotas comerciais e sociais com Salvador e Rio de Janeiro, e que tinha uma grande existência de marinheiros negros, livres e escravizados, africanos e nascidos no Brasil. Também muitos africanos que se libertavam aqui, inclusive oriundos das charqueadas, circulavam pelo Atlântico”, comenta.
Oliveira frisa que os artefatos têm um valor imensurável para a comunidade afrorreligiosa do Rio Grande do Sul e do Brasil, para toda a comunidade negra e para aqueles que se identificam com a luta antirracista. De acordo com Oliveira, o trabalho também está pautado pela ideia de reparação. “Os séculos de escravidão e os crimes praticados contra a população negra na diáspora precisam disso. Temos que discutir com a sociedade brasileira, com os estados nacionais brasileiro e alemão, possibilidades de políticas de reparação histórica para o povo do axé”, afirma.
Para o pesquisador, as rodas de conversa, com a apresentação do acervo e as discussões suscitadas, são um momento de restituição simbólica para, no futuro, se tratar da devolução destes elementos ao Estado. “Temos a proposta de repatriação, trazendo a coleção para um espaço de memória, o que inclui pensar a constituição destes locais voltados para a cultura negra no Rio Grande do Sul.”
Oliveira salienta que esse conjunto de informações abre novas perspectivas sobre a história da formação do Rio Grande do Sul. “Possibilita a gente repensar os fatos, uma vez que existem narrativas até bem pouco tempo hegemônicas sobre a formação histórica e cultural do Rio Grande do Sul, que referenciam unicamente a ideia do gaúcho do Pampa, mistura do português e espanhol da fronteira, ou os imigrantes, principalmente alemães e italianos, que ocuparam as regiões da Serra. Nesse discurso, pouco ou nenhum espaço é reservado aos indígenas, para as populações nativas e para os africanos e afrodescendentes”, considera.
O grupo de pesquisa e curadoria da Coleção Batuque também é integrado por Jovani de Souza Scherer (Professor do Colégio Anchieta e doutorando em Hisória/UFRGS), Fernanda Oliveira (Professora do Departamento de História/UFRGS) e Nina Fola (Mulher de Axé, Socióloga e Multiartista). Oliveira reforçou que o trabalho não busca protagonismo individual, mas promover esse conhecimento e fazer com que a comunidade, principalmente o povo de terreiro e a população negra, se aproprie dessa informação e passe a integrar as discussões e a mobilização pela repatriação do acervo.
Público se surpreende com informações e apoia a ideia de repatriação
Mais de 50 pessoas participaram da atividade, lotando o salão do CBTT. Entre elas estava a vice-prefeita de Pelotas, Daniela Brizolara. Ela mostrou-se bastante impressionada pelo trabalho que foi apresentado. “Saber que esses artefatos existem de fato, que foram tirados daqui do Rio Grande do Sul e que temos a possibilidade de lutar pela repatriação deles, nos dá um sopro de esperança e alegria. Historicamente, é muito importante para o nosso povo”.
Mais de 50 pessoas participaram da atividade, lotando o salão do CBTT. Fotos: Daniel Silveira/Smir
Para o titular da Smir, secretário Júlio Domingues, o evento “foi uma excelente atividade para exaltar e valorizar as religiões de matriz africana, a capacidade de resistência do povo negro, a grandiosidade da capacidade técnica desenvolvida, mesmo sobre o regime de escravização.” Conforme Domingues, o evento também serviu para suscitar debates sobre a importância do combate à intolerância e ao racismo religioso e da promoção da igualdade racial. “O trabalho demonstra nitidamente o quanto nós, ao longo da história, recebemos informações equivocadas sobre a presença e a trajetória das pessoas negras que foram escravizadas. Elas tiveram muita resistência, desenvolveram muitas atividades técnicas com grande capacidade e com saberes que existem até hoje.”
O presidente do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas, babalorixá Rodrigo Domingues, considerou que o resgate histórico promovido pelo projeto é muito importante. “Para a Semana de Combate à Intolerância Religiosa, a Coleção Batuque é objeto de um profundo estudo, para a gente parar, refletir e mostrar para o povo de terreiro o quanto é importante esse movimento, o quanto é significante para a gente fazer parte disso.”
Anfitriã do evento, a Iyá Gisa de Oxalá declarou-se honrada em sediar o encontro. “Nossa casa está sempre à disposição para discutir a nossa tradição, para a cultura e para a ciência, porque um terreiro é tudo isso”.