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Um batalhão feminino na ‘linha de frente’ do combate à Covid-19

­Nas áreas da saúde e assistência social, essenciais no enfrentamento da pandemia, as mulheres representam mais de 80% dos trabalhadores

Por Alessandra Senna 25-05-2020 | 11:40:32

As áreas da educação, saúde e assistência social são, histórica e majoritariamente, ocupadas pelas mulheres. Muitas meninas desejaram, um dia, ser professoras, médicas ou enfermeiras, e grande parte tornou real o "sonho", ao optar por estes ofícios cuja essência está em "ajudar o outro".

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que cerca de 70% da força de trabalho nos nichos da saúde e assistência social, no mundo todo, é feminina. Índice que alcança um número maior, quando o assunto é a pandemia causada pelo novo coronavírus. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), mulheres compõem 80% das equipes de enfrentamento da Covid-19. O percentual corrobora a constatação da realidade de Pelotas: um batalhão de trabalhadoras vive, há quase três meses, em prontidão na linha de frente das unidades públicas de saúde.

Enfermagem tem maioria

As mulheres representam 86,23% dos profissionais do setor da saúde municipal. As enfermeiras têm destaque maior, uma vez que consistem em 91,51% do contingente. Em seguida, figuram as técnicas e auxiliares de enfermagem: 89,27%. As médicas correspondem a 62,32% do total de funcionárias, consideradas essenciais às ações de controle e combate ao Sars-CoV-2.

Enfermeiras têm destaque maior, uma vez que consistem em 91,51% do contingente – Foto: Divulgação

Técnica de Enfermagem, Aneluci Peixoto Campelo é uma das 407 servidoras da Secretaria de Saúde (SMS) e faz parte do grupo que teve a vida transformada em março, quando surgiram os primeiros casos da infecção na cidade. Acostumada ao serviço de vacinação no Centro de Especialidades, há quase três meses se afastou da família — está vivendo na casa dos pais, que estão em um sítio, para proteger a filha e o marido — e passou a integrar a equipe do Centro Covid.

"Meu esposo tem asma, meus pais são idosos; quem trabalha na saúde, por mais que saiba os protocolos e como se proteger, está sempre exposto. Então, percebi que era hora de me isolar e trabalhar. Foi para isso que escolhi a área da saúde", relata a técnica. Ela também confidencia que ficou tranquila ao perceber a segurança da estrutura montada, no local, a fim de proteger os profissionais. 

"A vontade de auxiliar e a certeza de estar segura me convencem que fiz a escolha certa", analisa Aneluci. 
Aneluci é técnica de enfermagem no Centro Covid – Foto: Arquivo pessoal

Nas unidades de referência

No Centro Covid, elas representam em torno de 80% dos cem funcionários designados ao serviço de referência voltado a pessoas com síndromes gripais, em especial a Covid-19. Estão presentes médicas, enfermeiras, auxiliares administrativas, higienizadoras, nutricionistas, técnicas de Enfermagem e farmacêuticas. As mulheres também dominam a equipe de outra instituição, na qual existe uma ala destinada exclusivamente a infectados pelo novo coronavírus: o Hospital Escola (HE) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). 

Fisioterapeuta intensivista e especialista em atendimento de pacientes internados em Unidades de Tratamento Intensivo (UTI), Marina Müller é uma das 80 mulheres destacadas para atuar na ala Covid do HE-UFPel. O seu primeiro desafio foi, semelhantemente ao da maioria das colegas: ficar longe, durante 18 dias, do filho de 4 anos de idade. A segunda adversidade, relata Marina, diz respeito à compreensão e às descobertas em relação ao próprio coronavírus. 

"A gente estuda, estuda essa doença, porém sempre aparece uma novidade; isso é estressante. Tivemos de mudar rotinas, procedimentos, tudo pelo risco de contaminação no ambiente, então, no início, foi difícil. Mas eu sabia que precisava estar lá, que eu poderia assistir, com cuidados, os pacientes que seriam internados", conta a fisioterapeuta.

Marina já voltou a ver o filho todos os dias e diz que está pronta para retornar, se for escalada novamente. "Jamais me negaria a tratar alguém doente", assinala. 

Marina, fisioterapeuta do HE, ficou 18 dias sem ver o filho – Foto: Arquivo pessoal

Gestoras na linha de frente

A gestão de todas essas servidoras da saúde também é feminina. A titular da SMS, Roberta Paganini, explica que a presença de tantas mulheres nessa área está ligada à essência do gênero.

"As mulheres, de um modo geral, são fortes, resilientes, criativas e possuem uma sensibilidade natural, que faz com que se coloquem no lugar do outro e isso constrói o cuidado que queremos ter com os usuários do SUS", argumenta Roberta. 

Todas as decisões relacionadas à pandemia em Pelotas são de uma trabalhadora da educação, segmento também interligado ao comprometimento com outros cidadãos. Para a prefeita Paula Mascarenhas, a experiência de governar um município, em meio a uma crise sanitária mundial, é semelhante tanto para homens, quanto para mulheres. Todos possuem um sentimento de grande responsabilidade ao fazer escolhas, realizar deliberações, segundo a gestora-chefe do Executivo pelotense.

"Eu sei que, se tomar a decisão errada, muita gente pode sofrer e, se tomar a decisão certa, muita gente também sofre. Estamos sempre caminhando no ‘fio da navalha’. Estou continuamente em busca do bom senso, do equilíbrio, para estabelecer medidas que controlem o avanço da doença, ou seja, que preservem vidas, mas também pensando na fase pós-pandemia", sustenta a prefeita.

'Confio na sensatez, no bom senso, na sensibilidade, na capacidade de ouvir, olhar para as pessoas, na empatia', diz a prefeita – Foto: Divulgação

Paula acredita que a forma das mulheres conduzirem e resolverem os problemas é que as distinguem nesse momento. A prefeita reconhece o grande contingente feminino que faz parte dos dois órgãos municipais ligados diretamente ao enfrentamento e ao combate do avanço do vírus. A gestora se diz tranquila por saber que todas elas estão à frente das ações da cidade contra a pandemia.

"Confio na sensatez, no bom senso, na sensibilidade, na capacidade de ouvir, olhar para as pessoas, na empatia que as mulheres desenvolvem e até por conseguirem fazer sacrifícios, como se afastarem das suas famílias em prol de outras pessoas. É por doação, tanto como servidoras públicas, quanto por amor, porque elas querem preservar as suas famílias. É admirável", constata Paula. 

Assistência a quem mais precisa

Se, na saúde, elas fazem valer o princípio da dedicação ao próximo, na seara da assistência social a crise atual tem tornado a atenção aos mais necessitados cada vez mais importante na vida de muitas profissionais. Do total de 397 trabalhadores, 321 são mulheres na Secretaria de Assistência Social (SAS), entre as quais 90% estão na linha de frente das ações de acolhimento das famílias e moradores atingidos.

A psicóloga Graciane Tavares está nesse grupo. No Cras São Gonçalo, o trabalho é intenso desde as primeiras mudanças na rotina de Pelotas com a Covid-19. A entrega de cestas básicas e o cadastramento de perfis diferentes de pessoas necessitadas, entre elas muitas que perderam o emprego, fazem com que a especialista perceba o quanto o serviço social é imprescindível. "As pessoas estão carentes financeiramente, no entanto, também precisam de informação. A procura aumenta cada vez mais. Por isso, sinto que estou no lugar correto: com mulheres, amparando e contribuindo", enfatiza a psicóloga.

Graciane, uma das psicólogas do Município que se dedica à assistência social – Foto : Arquivo pessoal

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