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'Eu venci a Covid'

Veja o relato de Carlos Adriano, paciente internado por 11 dias em UTI de hospital de Pelotas, que se recuperou da doença

Por Alessandra Senna 27-07-2020 | 11:50:45

A voz ao telefone é fraca. Carlos Adriano Garcia adianta que ainda não consegue falar como antes da internação. Há pouco mais de uma semana em casa, o sargento reformado da Brigada Militar, técnico em Enfermagem e socorrista do Samu de São José do Norte – cidade onde mora – não esconde a satisfação em dizer que "está bem".

A fisioterapia para recuperar a capacidade respiratória e a massa muscular é o próximo desafio para a volta à rotina. Ele foi o primeiro paciente internado na UTI Covid do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), unidade criada pela Prefeitura de Pelotas, para receber exclusivamente pacientes com coronavírus, a sair recuperado do hospital.

Dos 18 dias em tratamento, restaram lembranças um pouco diferentes: a doença agressiva, a separação da família e a dedicação da equipe de profissionais de saúde. De volta ao convívio com a companheira de um casamento que já dura 33 anos, a espera pela visita diária da filha ao sair do trabalho, e a companhia da cachorra Thay, ele conta como foi superar todo esse tempo de internação e a contaminação pelo vírus que já matou 87.058 pessoas no Brasil (confirmadas até as 8h desta segunda-feira, 27).

Carlos Adriano em casa, com a mulher, a filha e a cachorra da família ─ Foto: Arquivo pessoal

Acompanhe a entrevista

Como começou a sentir os sintomas da Covid-19?

Um dos meus primeiros sintomas foi a perda da força muscular. Não conseguia levantar uma maca. Isso em um dia. No outro dia, já comecei a sentir outros sintomas: eu perdi o paladar e a mobilidade dos membros, das mãos. Nem imaginava que poderia ser Covid. Resolvi fazer um teste de glicose e deu um "pouquinho" alto; achei que poderia estar ficando diabético.

Mas, no outro dia, comecei a sentir falta de ar e aí eu desconfiei que poderia ser Covid. Fiz o teste rápido (por ser profissional da área da saúde, tem prioridade conforme preconiza a Vigilância Epidemiológica Estadual) e deu negativo. No dia seguinte, eu estava trabalhando no Samu, tive que descer da ambulância e tirar a máscara para respirar. Estava muito mal, mesmo.

Aí, fui internado (em São José do Norte), fiz exames e o resultado foi negativo para Covid, novamente. Mas o médico me dispensou do trabalho; disse que não havia certeza se eu tinha ou não a doença. Isso foi no dia 19 de junho. Fiquei em casa até dia 22, lutando! Quase não conseguia respirar. Voltei ao hospital, fiz o exame novamente e aí deu positivo. Fui transferido quase na mesma hora para Pelotas.

Quando estava sendo transportado na ambulância, para Pelotas, qual foi o pensamento?

A sensação para mim foi mais estranha porque me senti como paciente em uma ambulância pela primeira vez. Faz dez anos que trabalho em uma ambulância, como técnico em Enfermagem, e nunca havia precisado desse tipo de socorro.

Foram 18 dias no HE-UFPel, entre os quais 11 em uma UTI. Como foi?

Cheguei de noite. No outro dia, eu disse pra médica que precisava de mais oxigênio, porque não conseguia mais respirar por mim mesmo. Ela me disse que iria me entubar. Foi muito atenciosa, perguntou se eu queria fazer uma ligação para casa. Fiz uma chamada de vídeo, acabei me emocionando e não consegui explicar para a minha esposa e para a minha filha o procedimento que ia ser feito. Falei pouco. Minutos depois, já não vi mais nada. Acordei em uma enfermaria 11 dias depois sem noção nenhuma.

Como foi saber que, mesmo melhor, teria de permanecer no hospital?

A médica já tinha me explicado que eu tinha ficado muito tempo entubado e, por causa disso, teria que ser monitorado por mais tempo. Aquilo me deixou muito triste. Eu tava bem; eu precisava ver a minha família, minha filha, minha esposa; eu precisava vir para casa.

E a notícia da alta, a saída com toda a comemoração?

Parece que abriram uma gaiola, sabe? Foi demais, emocionante! Eu não tinha ideia que teria uma comemoração, algo assim. Tomei banho, me preparei. Não imaginava que minha esposa estava me esperando; achei que iria voltar de ambulância. Quando eu saio da enfermaria 8, o pessoal já no corredor, todo mundo aplaudindo, me deram a plaquinha "Eu venci a Covid". Foi uma surpresa. Não sei explicar. De repente, no meio do corredor, eu encontro a minha esposa! A emoção foi demais; não sei como descrever.

Comemoração no momento da saída do hospital Fotos: Assessoria de Comunicação/HE-UFPel

O que o senhor fez assim que chegou em casa?

Eu só queria ver a minha filha. Ela é a minha vida, a minha filha. Cheguei na hidroviária de São José do Norte e ela estava lá, me esperando. Quando desci da lancha, foi a primeira pessoa que abracei. 

O que acha de ter sido o primeiro paciente grave de UTI Covid a sair recuperado?

Essa parte, de eu ser o primeiro a sair recuperado de uma UTI, não me surpreendeu. Confesso que nunca acreditei na letalidade do vírus. Sei que é perigoso, principalmente para mim, 'pra' a minha idade, sou hipertenso, mas não pensei em morrer.

Por ser profissional da saúde, foi mais difícil aceitar que havia se infectado? Estava preparado emocionalmente?

Sim estava, mas não para tanto. Não sou muito assustado. Sempre usei EPI, mantinha todos os cuidados, mas por ser da linha de frente sabia que a qualquer momento poderia me infectar; tinha certeza que poderia me contaminar.

Como o senhor acha que pegou o vírus?

Não tenho ideia. Não sei se foi no trabalho. Em casa não foi porque aqui ninguém mais teve, nem minha esposa e minha filha. Eu sempre mantive um distanciamento. Se eu precisasse entrar em um fila, mantinha distância da pessoa da frente, sempre usei máscara. Não peguei paciente suspeito de Covid. Então, eu não tenho uma explicação para dar.

Após toda essa experiência, o que diria às pessoas, principalmente àquelas que ainda têm alguma resistência à prevenção?

O vírus existe, ele é letal para algumas pessoas, é muito perigoso, muito mesmo. Pode ser perigoso até para jovens. As pessoas têm que se isolar, têm que sair o mínimo possível, têm que se proteger, têm que fazer a assepsia com álcool ou sabão. Se a gente não mantiver o distanciamento, vai ser muito difícil; vai acabar passando de um para o outro. Tudo é muito incerto. Não sabemos se podemos pegar novamente.

Quais as lembranças da equipe do hospital?

O corpo clínico do hospital: 100%. A maneira como conversavam, com carinho. Ficar lá é muito difícil. Não pode entrar familiar, não pode ter visitas, não pode receber nada de fora. Então, o tratamento muito humano fez a diferença.

O que a Covid mudou no Carlos?

Eu sempre tentei ser uma pessoa humana. Sempre tentei tratar as pessoas bem, principalmente no meu trabalho de técnico em Enfermagem. Sempre tentei dar o melhor de mim e eu achava que eu fazia muita coisa. Mas com a Covid, ao ser paciente, eu percebi que o muito que eu achava que eu fazia é quase nada. Quando eu voltar ao trabalho, eu tenho que fazer 20, 30 vezes mais para ser mais humano, para me aproximar mais do paciente. Tentar conversar mais, acalmar mais, para tentar fazer a diferença, de verdade.

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saúde, coronavírus, recuperado, internado, UTI, profissional de saúde, Covid-19, caso de superação

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